Domingo, 14 de Junho de 2009

Os fantasmas que estragaram o natal


Os pés de Keven avançaram rápidos pelo mato rasteiro que dava uma cor esverdeada à constante névoa que impedia uma visão ampla do cenário sombrio onde se encontrava a mansão número 4 daquela rua. Marina corria para alcançar seu amigo, fazendo seus cabelos loiros balançarem. O único brilho naquele lugar sombrio vinha deles.
Keven parou ao alcançar a porta de madeira comida pelos cupins e voltou-se para a garota:
- Achei que você tinha dito que não viria.
- Eu não vou te deixar entrar sozinho. Afinal, o que você veio fazer aqui mesmo, Keven?
Antes de responder a pergunta dela, Keven desmentiu-a. Seu orgulho o enojava algumas vezes.
- Mentira! Você é que não quer ficar sozinha aqui fora. Acorda, Marina, já houve três duplos homicídios nessa casa. Você não queria viver uma aventura? Está aí a sua aventura! Excitante, não é?
A menina não respondeu, não queria que seu colega percebesse que estava com medo, apenas seguiu-o pela na trajetória pela casa. No início não havia nada incomum. Apenas muita poeira e teias de aranha, mas isso tudo era normal, afinal, eles estavam em uma casa abandonada. Somente uma coisa incomodou Marina, que esperta, logo percebeu que as luzes da casa não deveriam estar acesas já que ela não era habitada há anos.
Já tinham percorrido dois dos cinco andares da mansão tão temida pelos moradores da pequena cidade quando os estranhos eventos começaram a acontecer. Enquanto subiam as escadas rumo ao terceiro andar, sentiam a madeira velha dos degraus ranger sob seus pés a cada passo. O relógio de pêndulo situado no segundo andar bateu onze horas, produzindo um barulho ensurdecedor que assustou Marina ao ponto de fazê-la cair aos pés de Keven e agarrar as canelas do amigo.
- Os fantasmas estão aqui, Marina. - Ele falou pausadamente.
- O que??
- Consulte seu relógio e verá que estou certo. Há alguém aqui.
Amedrontada, ela obedeceu, consultando seu pequeno e delicado relógio de pulso. Os ponteiros marcavam exatamente onze horas. Como o relógio da casa poderia marcar a hora certa se supostamente pertencia a uma residência abandonada há décadas?
O próximo cômodo que o curioso Keven visitou ao chegar ao terceiro piso, foi uma espécie de biblioteca. Ele nem tentou olhar o conteúdo dos milhares de livros que haviam ali, pois as traças já haviam corroído boa parte deles. As luzes de toda a casa se apagaram quando um raio atingiu um poste do outro lado da rua ao mesmo tempo que a chuva desabou.
- Keven... vamos embora! - O pedido de Marina mais parecia uma súplica. Mas invés de atendê-lo, Keven se largou em uma das poltronas cheias de pó do cômodo.
- Agora está escuro, loirinha. Não dá pra a gente voltar nem continuar. Não consigo enxergar um palmo na frente do nariz, se formos descer escada num escuro desses, é bem provável que os fantasmas nos peguem em uma de suas armadilhas.
A "loirinha" formou em seu rosto uma expressão de impaciência que mostrava bem o que ela estava sentindo naquele momento.
- Você não quer mesmo que eu acredite nisso, não é? - Falou.
- Como assim? Você não acredita em fantasmas?
- É lógico que não, idiota!
- Achei que todo mundo acreditasse... mas se você não acredita, porque está com medo? E não me venha falar que não está com medo.
A expressão de impaciência mais uma vez tomou conta do rosto fino da menina. Ela girou os olhos para cima e suspirou profundamente antes de responder:
- Sim, eu estou com medo. Mas é um medo irracional, Keven. Nossa mente cria ilusões para nossa própria defesa.
- Ah, vai me dizer que a tempestade lá fora e a queda de energia também são ilusões da nossa mente? Senta aí, Marina. Tenho certeza que você só não acredita em fantasmas porque nunca ouviu a história dos amantes que estragaram o natal.
- Você não vai começar a contar histórias de terror agora, vai?
Keven fechou a cara por alguns segundos. O descaso que sua amiga fazia do assunto o irritava profundamente.
- Não é uma historinha de se contar em acampamento. Aconteceu de verdade! De qualquer jeito a gente vai ter que esperar aqui. Deixe-me contar a história, chatinha.
Com o silencioso consentimento de Marina, Keven começou a história usando palavras difíceis e atribuindo muitos adjetivos à todas as coisas, dando um misticismo desnecessário àquela narrativa que já era bastante aterrorizante. Ela falava sobre dois adolescentes: Mírian e Calebe, que costumavam ser muito amigos, mas quando começaram um relacionamento amoroso, essa amizade se acabara, pois se amavam demais, e esse amor era, principalmente da parte de Calebe, doentio. Os constantes acessos de ciúme deram espaço para brigas que já tinham virado rotina. Quando o jovem Calebe se deparou com a pessoa que mais amava triste e magoada, tentou voltar atrás e rompeu seu namoro de quatro anos, pensando em reestabelecer a amizade de outrora. O que ele não tinha previsto, era o ressentimento que havia ficado entre os dois. Sua amizade com Mírian jamais seria a mesma.
- O amor dele pela amiga era incondicional e ele não aceitaria perdê-la tão facilmente. - Contava Keven - Então, Calebe fez sua difícil decisão e chamou Mírian para almoçar em sua casa na véspera de natal. O almoço foi ótimo e agradável, visto que a família dele adorava a dócil e mimada menina. Apenas após o almoço foi que Calebe resolveu colocar seu plano em prática. Chamou-a para passear nos jardins e foi quando a tragédia aconteceu. Com um punhal herdado de seu avô, o rapaz perfurou a fina camada de pele que envolvia a barriga de sua amiga, matando-a de hemorragia em pouco tempo. Antes que sua família notasse o crime, ele virou a lâmina da arma para seu próprio peito e se matou, condenando Mírian a passar o resto da eternidade com ele e estragando o natal de pelo menos duas famílias. Os dois nunca mais ficaram sozinhos, nunca mais poderiam se queixar de solidão. Agora os dois têm um ao outro. Sabe qual é o mais interessante, Marina? Essa triste história aconteceu há quarenta e quatro anos atrás, nessa mesma casa sombria em que nos encontramos agora. Após esse trágico evento, os fantasmas de Mírian e Calebe assombram a mansão e tentam convencer todo casal que coloca os pés aqui a fazer o mesmo que eles fizeram.
Marina se ajeitou na poltrona. seus olhos já haviam se acostumado com o escuro e agora ela podia ver o semblante de Keven, fitando-a fixamente. Mesmo com os pêlos loiros do braço arrepiados e um frio na barriga que denunciava seu medo, a menina falou com desdém:
- Você não é um bom contador de histórias, sabe? E essa daí em particular é bem clichêzinha, viu. Se você queria me convencer de alguma coisa, não conseguiu.
Antes mesmo que Keven pudesse rebater com uma das respostas mal educadas que vieram em sua mente, as luzes se acenderam novamente, assustando os dois. Eles olharam a sua volta e analisaram o local, que parecia estar bem diferente do que era antes de faltar luz.
Alguns livros estavam caídos no chão e alguns móveis estavam em outra posição. Talvez a mente dos garotos estivesse mesmo brincando com eles, talvez as coisas já estivessem assim e eles não tinham prestado atenção. A única coisa que provou que alguém realmente estivera ali, foi o fato de que a cadeira de balanço ao lado de Marina balançava. E balançava forte, como se alguém tivesse acabado de se levantar dela.
Assim como sua amiga, Keven tinha medo, mas ao contrário dela, ele se levantou com um pulo e foi atrás da pessoa ou seja lá o que fosse que tivesse feito aquilo. No exato instante em que ele deixou o confortável encosto da poltrona, uma luz tão ou mais brilhante que os cabelos de Marina tomou conta do ambiente e se materializou em forma de uma linda menina descalça com um vestidinho de renda branco.
- Em que posso ajudá-los? - Sua voz era tão fina que Marina teve certeza de que poderia matá-la de agonia se a ouvisse por um bom tempo.
Keven quase não conseguia falar de tanto espanto. Sua boca se abriu e fechou umas três vezes antes que ele conseguisse pronunciar uma palávra quase inaudível:
- ... Mírian...
- Ah, eu entendo. - A menina balançou a cabeça afirmativamente - Você veio matá-lo, não é? - Ela se dirigia à Marina.
Tomado pelo desespero, Keven conseguiu falar em alto e bom som alguma coisa que fizesse sentido:
- Marina, não ouça nada do que ela disser, ela vai tentar te convencer! - E voltando-se para a pequena aparição feminina - Seu monstro, não ouse fazer nada comigo! Você não vai conseguir me convencer!
- Eu?? - A fantasma riu. Sua risada conseguia ser mais fina e agoniante que sua voz. - Quem vai fazer alguma coisa aqui é você. - Ela virou os olhos para Marina - Ou você. Sabem, as pessoas costumam culpar a mim e a meu amado Calebe. Mas nós não temos absolutamente nada a ver com isso. Os casais já vêm aqui com essa ideia na cabeça, não somos nós que os manipulamos. Se não fosse isso, por qual outro motivo eles viriam aqui? Para ter um passeio romântico é que não é.
- Nós não somos um casal. - Defendeu-se Keven.
- Oh, não? Não seja tolo! Você sabe que os sentimentos dela por você são os mesmos que os seus. A única coisa que falta é iniciativa. Porque você não conversa com ela? Tem medo? Medo da possível rejeição? Medo de perdê-la? Talvez seja por isso que você a trouxe aqui.
Agora sim Marina deixava transparecer seu medo. Agora seu medo era totalmente racional.
- Keven... É por isso que você não quis ir embora! Seu... maldito! Eu te odeio! - Suas últimas palavras foram mais rosnadas do que faladas. Marina deixara sua primeira lágrima pingar no carpete cor de vinho daquela sala arrepiante.
- Loirinha! Você sabe que eu não... você está desconfiando de mim? Logo de mim? Eu que sempre te apoiei! Eu não vim aqui pensando nisso, se você quer saber, mas agora até que seria bom arrancar esse seu coração impuro e beber seu sangue sujo! Você me dá nojo, Marina, nojo! - Falou Keven surpreendendo a si mesmo. Em condições normais, ele jamais falaria coisas como essas.
Os dois já nem se importavam com a presença de Míriam. A antiga amiga de Keven parou para respirar entre soluços antes de recomeçar os insultos. Seu coração batia demasiado rápido, sua adrenalina estava à mil. Sentiu-se fraca de repente e se apoiou em uma pequena mesa redonda de vidro, mas ao fazer isso, sentiu a ponta metálica de um objeto que, por mais que forçasse sua mente, não conseguia lembrar de ter visto naquele lugar. Era um revólver antigo, daqueles que só se via em filme. A menina segurou-o com firmeza, pronta para atirá-lo longe caso Keven tentasse pegá-lo.
- O que foi? Ficou sem palavras? Viu que, como sempre, eu tenho razão? - Keven cuspiu suas palavras agressivas de modo tão feroz que Marina não pôde pensar no que estava fazendo. Uma força poderosa apoderou-a, fazendo-a apontar o cano frio da arma diretamente para o peito de seu "adversário". Agindo novamente, a força a fez apertar o gatilho.
Talvez nem fosse a força. Talvez fosse ela mesma que tivesse que colocar a culpa em algo sobrenatural para justificar suas ações. É, era isso. Ela precisava ter feito aquilo. Olhou satisfeita para o corpo que sangrava manchando ainda mais o carpete.
Mírian riu. Aquela risada agoniante. Marina teria atirado na fantasma se aquela risada não a tivesse trazido para a realidade. Ao ver Keven caído, morto no chão, ela não pode gritar nem chorar, fez apenas o que era necessário: Direcionou a arma para sua cabeça e deu um fim àquela história com apenas um tiro.
Um rapaz alto e moreno apareceu ao lado de Mírian do mesmo modo que ela havia aparecido para os finados adolescentes há poucos minutos atrás. Loucamente, os dois se abraçaram e se beijaram. Jamais ficariam sozinhos.

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Reflexão do dia

Hoje eu acordei me perguntando porque eu era pior que todos
E fui deitar me perguntando porque todos eram melhores que eu.

Se você quer saber...
é bem diferente!

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

O amor só mudou de cor


Tudo começou com aquele bege clarinho, que simbolizava apenas o respeito que tínhamos um pelo outro. Com o tempo, esse respeito cresceu, nossa amizade cresceu e nós também crescemos. Já não era mais bege... começava a ganhar um tom claro de rosa (o mesmo tom de rosa que nossas bochechas adquiriam ao nos falarmos). Parou por aí... Pelo menos por um tempo. Dois longos e eternos anos de rosinha claro.Dois looooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooongos anos. E então o rosa regrediu e voltou a ser bege. Mas então, de repente, voltamos a nos falar direito e nossa amizade já estava no auge de novo. De repente. De repente mesmo! Foi tão rápido que nem passou por aquele rosinha claro. Do bege, já foi direto para aquele rosa-choque escandaloso!
Como foi bom esse pouco tempo foram bons esses 10 meses! 10 meses de rosa - choque bem aproveitados e vividos intensamente!
E a gente brincava, e gritava, e cantava, e pulava, e dançava, e fingia que brigava, e simulava discussões... e haviam aquelas horas em que você me vencia vinte vezes seguidas no videogame na sua casa, em que fingíamos que estudávamos inglês e era tão, tão, tão bom!
Foi quando você me roubou o primeiro beijo, que o rosa -choque virou vermelho, rouge, rubro, escarlate!
O amor que sentíamos um pelo outro era intenso, mas já não aproveitávamos nossos momentos juntos tão intensamente. Ficávamos muito presos àquela coisa de beijar, dizer que ama, pegar na mão, beijar, dizer que ama, pegar na mão e esquecemos que antes de sermos namorados, éramos amigos!
Você deve saber, isso foi ruim. Tão ruim que depois que passou a novidade, não era vermelho, não era rosa - choque, não era... como descrever aquela cor? Era uma espécie de rosa claro desbotado, ou talvez nem isso. Estava cristalinamente claro que aquilo não dava mais certo. Poderíamos ter retornado à nossa amizade, que era linda! Mas foi só eu tocar no assunto de terminar que você jogou tudo no lixo pro alto! Inclusive a nossa amizade.

Pra mim já era branco. Um vazio.

Ora, do que você está reclamando?


O amor mudou de cor!

"O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado"

Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Eu não quero um Feliz Pra Sempre!

- Feliz pra sempre?
- É. PRA SEMPRE! Não é maravilhoso?
- É... deve ser.
- ...
- E depois?
- Depois do que?
- Do Feliz Pra Sempre.
- Pra Sempre é pra sempre, oras!
- Então não tem depois?
- hum.... não!
- Você fica sendo Feliz pra Sempre pra sempre?
- ...


Se ser feliz pra sempre é ficar lavando cueca de príncipe "encantado" até morrer e se sentir feliz por isso...

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Antônio


Eu gosto de você.
Eu gostava do seu jeito,
do modo como seu sorriso descoloria a noite, só para podermos colorir de novo,
juntos.
Eu gostava de seu cabelo despenteado pela manhã.
E gostava do nosso "só mais um pouquinho" que durava para sempre!
Gostava da rede esfarrapada do seu quarto, onde a gente dividia confissões.
Também era nosso barco, nave, cavalo, podia ser também o nosso zepelim, nosso carrinho de rolimã ou um balão pra a gente fugir "pra onde eu só veja você e Você veja a mim só".
Lá podíamos ser tudo! Dois cabeleireiros soltando a franga, cavaleiros de dragão percorrendo toda a Alagaesia, psicopatas malígnos e inteligentes com o desejo de dominar todas as ruivas do planeta!
Ah, como eu gostava de toda essa fantasia!
Porque nada que eu fizesse poderia estar errado se eu estivesse com você.
E como eu gostava do modo como achávamos que seríamos felizes para sempre!
Mas não fomos, não é?
Pelo menos não juntos.
Já pensei que gostava de você como uma mulher gosta de um homem, mas acho que não.
Você é meu melhor amigo, não é?
Então pra mim tanto faz...
você pode ser O amigo, O homem, O irmão. Você só não pode ser um amigo.
Gosto tanto de você que não consigo classificar nosso tipo de amizade, nosso tipo de "gostar".
Ah, como eu poderia voltar, não é?!
Só pra gente poder se despedir mais uma vez... e mais uma vez jurar que nossa amizade será para sempre!

Sábado, 21 de Junho de 2008

Treze

Treze sempre foi um número enigmático. Uns dizem que dá sorte, outros dizem que dá azar. Ter 13 anos é um dilema! Você não é nem criança, nem adolescente. E é nessa fase de transição que você passa a entender todas as coisas e não compreende tantas outras.
E pensar que eu já passei por tantas coisas...
E pensar que ainda falta mais da metade da minha vida para viver e ainda há tantas coisas a serem feitas...
Apesar de serem apenas 13 anos, é a minha vida inteira! Bom, e o que dá para fazer em treze anos de vida? Paticularmente....

Eu já amei, já me iludi, já sorri, já chorei vendo um filme, já chorei lendo um livro,
já chorei por alguém, já dancei na chuva, já fiz poomsae na chuva, já me joguei de roupa
na piscina (e 2 vezes), já comi brigadeiro de panela, já quebrei a perna, já plantei uma árvore,
já bati, já apanhei, já gritei com alguém, já gritei por alguém, já vi o tempo parar diante dos
meus olhos, mas também já o vi passar mais depressa do que deveria. Já roubei um beijo, já
tive um beijo roubado, já fiz uma música, já fiz poesia, já recebi flores, já percorri seis estados do Brasil dentro de um gol, já fiz o que era proibido, já madruguei, já tentei contar as estrelas...

Mas tambén há muito a ser feito. Por exemplo, eu...

ainda não publiquei um livro, nunca pulei de paraquedas, nem disse: "siga aquele carro!" a
um taxista. Nunca declarei um poema para ninguém,nem nunca tive uma daquelas cenas lindas de beijo na chuva, ainda não tive um filho (dãããããã), nunca vi a morte, nem saí do país.
Nunca fugi decasa. Nunca participei de uma guerra de travesseiros [1] (buááááá), nunca tive um
tamagoshi, nunca me joguei na lama, nunca levei torta na cara, nem dominei o mundo. Ainda não joguei ovo em ninguém, tampouco bolinha de papel no professor. Nunca fui à lua...


Domingo, 25 de Maio de 2008




Lara consultou seu relógio de pulso pela última vez naquela noite. Faltavam apenas cinco minutos para o término da aula, que era mesmo muito boa! Uma magia dentro da realidade...

Dispersa em seus pensamentos, Lara já não prestava mais atenção na aula. Logo o professor pediu para que todos se sentassem, fez as observações finais, dispensou seus alunos e dessa forma, todos fomos para o lado de fora da salinha abafada onde aprendíamos todas aquelas coisas.

Era uma sexta feira. Todos esperavam desesperadamente pelo final de semana. Muitos pais já esperavam seus respectivos filhos do lado de fora, o professor foi embora em sua bicicleta vermelha de marcha, a dona do estabelecimento se recolheu no interior de sua casa, a qual ficava sobre a “escola”, deixando as luzes acesas, para os alunos que ainda ocupavam o local. Em sete minutos (gosto de ser exato) todos os alunos já haviam deixado o lugar. Todos exceto...

Eu e Lara nos sentamos na calçada, esperando por nossos pais. Minha barriga formigava de excitação e ansiosidade. Eu sabia que seria naquela noite.

Lara finalmente falou. Uma tentativa de puxar assunto, eu sabia. Não prestei atenção no que ela falou. Não no que falou. Sua boca se mexia rapidamente...

Sua boca... Ah, aquela boquinha perfeita! Os lábios carnudos encontravam-se e desencontravam-se num movimento frenético. Me viciei naquilo. Não cheguei a saber se ela notou ou não, mas eu só olhava para sua boca.

Os lábios pararam de se mover. E assim, somente assim, percebi que ela parara de falar. “Ham?” Pedi que repetisse. Ela o fez. Tentei me prender ao que falava, não me perder em pensamentos profundos novamente.

Lara perguntava algo sobre mim, não lembro direito, mas não importava. Respondi com poucas palavras, fui o mais breve possível. Tentei mostrar desinteresse, ver qual seria sua reação, mas meus olhos me traíam, fixavam-se diretamente em sua boca, estavam úmidos de paixão.

Fingir desinteresse não ia adiantar nada. Tinha que ter alguma atitude o mais rápido possível, mas aquela vergonha não me deixava muitas escolhas. Engolindo um pouco de saliva, perguntei que horas eram. “Que pergunta idiota!” Pensei, repreendendo-me pela minha própria tolice. Mas havia sido a única que eu podia fazer sem me atrapalhar.

Ela me respondeu sem consultar seu relógio. Disse já terem se passado vinte minutos. Havíamos passado tempo demais calados. “Não precisamos...” enfim eu tinha tomado coragem para falar algo que realmente importasse, mas minha voz saiu extremamente baixa e falhou no meio da frase.

Suspirei, não havia jeito, agora eu teria que concluir minha frase. “Oi?” Perguntou Lara, uma expressão que costumava usar quando não entendia algo. Suspirei mais uma vez. Aquilo não seria fácil.

Antes de voltar a falar, joguei meus cabelos louros para trás, com uma sacudida de cabeça, irritado com minha franja. Lara observou sem piscar. Sorri para mim em meu interior, percebi aquilo como um charme próprio.

“Não precisamos usar essas frases idiotas como desculpa para nos falar. Será que você existe mesmo?” Minhas palavras enfim saíram, mas se embaralhavam com meus pensamentos e não faziam sentido algum. Tive que sorrir após a frase, para não parecer idiota, camuflando a seriedade do assunto entre meus lábios, que infelizmente não eram tão perfeitamente belos como os de Lara.

Ouvi novamente aquela expressão saindo de sua boca: “Oi?”. Não respondi. Ela perguntava, mas entendera muito bem. Esse fato era perceptível devido ao seu olhar.

Seus olhos eram negros. Não de um negro comum, mas muito mais profundos e além de tudo, expressivos. Não tão expressivos quanto os meus, claro, mas ainda assim expressivos.

Meus olhos, ah sim, os meus sim são perfeitos. Meus olhos azuis são um tipo comum. Cor comum, tamanho comum, formato comum. Mas o que faz um par de olhos é o seu olhar. E o meu olhar é o que deixa meus olhos tão raros e especiais.

Meu olhar é expressivo, nunca ninguém verá um par de olhos mais expressivos que o meu. As pessoas costumam dizem não saber quando estou alegre, triste, temeroso, raivoso, etc pois a minha expressão é sempre a mesma. É porque costumam não dar atenção aos olhares. Meu olhar é tudo. Mostra tudo que sinto, tudo que sou. É a minha essência. Meus olhos e os lábios de Lara seriam a combinação perfeita.

Com um calafrio que desceu minha garganta, percorreu minha espinha e seguiu para a barriga, serpenteando, eu voltei à realidade.

Meus olhos caíram sobre os de Lara. Ela esperava pacientemente pela minha resposta. Mas que resposta era esta, ora essa? Ela já entendera tudo, tudinho!

Apoiei minhas mãos no chão e desloquei meu corpo mais para a esquerda, ficando mais perto de Lara.

Gostava de imagina-la como uma princesa num cenário medieval, um castelo nos campos da Escócia, ou algo assim, qualquer lugar, exceto ali. Lara não combinava com o cenário urbano, onde a delicadeza de seus traços fazia contraste com a realidade da paisagem ao fundo, formando uma espécie de arte moderna.

Não adiantava mais fugir, procurando a essência da minha existência no fundo dos seus olhos, eu encarei-a. Não, agora era diferente, não era bem como “encarar”, era como se eu estivesse mergulhando de cabeça naquela imensidão, “um salto no escuro da piscina”, não enxergava mais nada.

Por um momento, a minha princesa medieval também me encarou, olhos nos olhos. Meus olhos azuis nos olhos negros dela. O olhar foi forte, muito forte. Tão forte que ela não o suportou e fechou os olhos.

Também quis fechar os meus, mas não pude, a idéia de deixar de ver aquela boquinha perfeita me perturbava.

Agora estávamos próximos, muito próximos. Tão próximos que eu podia sentir seu calor. Ela estava quente, ardia em um calor humano e acima de tudo, tremia. Sua respiração chegava a ser desregulada.

A respiração desregulada... quis cessá-la. Enfim fechei meus olhos e parti em busca do meu destino. Seria para sempre.

A próxima coisa que senti foram os lábios de Lara. Acima de tudo eram frios, gélidos. Não que não fossem calorosos, muito pelo contrário. Sua frieza tinha um “quê” de sensualidade que me possuía, atraindo-me cada vez mais para perto daquele abismo que era sua boca.

Teria durado muito mais tempo, mas Lara me interrompeu.Olhou para o chão, assustada, como se tivesse feito algo errado. Percebi que não me olhava nos olhos. Não havia contato visual. Parecia que tinha medo de não resistir a meu olhar.

Sem saber o que fazer, abracei-a. Minha cabeça recostou no ombro dela. Eu precisava daquilo, desesperadamente.

Minha princesinha também não sabia o que fazer e sem ter onde colocar as mãos, repousou-as em minhas costas, como se protegesse uma criatura frágil. Uma criatura frágil... Naquele momento, não posso negar, era o que eu era.

Quando me dei conta, chorava. O sangue escorria de meus olhos. Eu morri, e morri de amor.

Pra ela foi apenas um beijo, pra mim, meu destino.

Obs: Não perguntem... nem eu entendi direito!